sábado, 3 de março de 2012

Bravura Indômita - A Machidão do Velho Oeste

Nesta semana eu assisti “Bravura Indômita” no Telecine e logo que descobri o filme na grade de programação do canal, defini que ele seria a base do meu próximo post. Na realidade essa foi a segunda vez que assisto ao filme, pois tive o privilégio de vê-lo no cinema, local onde obras como essa devem realmente ser apreciadas.

True Grit (título original) é um remake da obra de 1969 estrelada pelo saudoso (e macho) John Wayne. Aliás, a machidão da remontagem dos irmãos Coen será a tônica desta análise, que não pode ignorar a característica ímpar dos diretores em produzir obras densas, sem rodeios, psicologicamente complexas e de poucos finais felizes, vide “Fargo”, “Matadores de velhinha”, “Onde os fracos não têm vez” e “Queime depois de ler”.

Logo nos primeiros quadros se percebe a bela fotografia do antigo colaborador de Ethan e Joel Coen, o inglês Roger Deakins. Durante o julgamento do protagonista Rooster Cogburn (Jeff Bridges) somos agraciados com Bridges envolto em uma penumbra resultante da luz que entra por uma fresta no segundo plano. Até aí nada de novo, pois há décadas a luz cinematográfica é utilizada em esquema de feixes de luz que ressaltam as partículas de poeira do ambiente, entretanto naquele momento do filme essa técnica cai como uma luva, pois nele o espectador é pela primeira vez apresentado ao anti-herói Rooster, brilhantemente vivido pelo eterno Dude*. Não posso deixar de comentar os planos externos filmados na natureza desértica, ou nevada de western, onde equilibrar a luz natural com a luz dos atores é um tanto quanto trabalhoso.

Ainda nesta primeira cena de Bridges, o espectador é apresentado ao perfil psicológico do protagonista, sem a famosa utilização de flashbacks que por vezes tornam um filme piegas. Em meia dúzia de perguntas realizadas pelo promotor de justiça, descobrimos que ali se encontra um agente federal beberrão e falido, que dotado de poderes concedidos no pós Guerra Civil possui uma torta maneira de aplicar a Lei e a Ordem. De um jeito pouco convencional e duvidoso, Cogburn é um homem que honra seus compromissos, pune os “maus” e ajuda os “bons”.

Bridges atua de maneira engraçada, com um sotaque bastante carregado e com expressões corporais dignas de Jack Sparrow, entretanto quem realmente rouba a cena é Hailee Steinfeld. Haille dá vida à personagem Mattie Ross com uma autoridade e maturidade inesperada de uma atriz tão jovem. Claro que o roteiro verborrágico colabora, mas só compramos a ideia de uma personagem determinada e ótima negociante, a partir da postura de Hailee e da machidão com que essa garota se sobrepõe as demais personagens personificadas por excelentes atores (Matt Damon, Josh Brolin e Barry Pepper).

Fazer um western bom e crível nos dias de hoje é algo realmente muito difícil e por isso os Coen mereciam um Oscar em 2011. Pena que naquele ano eles concorreram com “O discurso do rei” e para ele perderam a estatueta. Ethan e Joel entregaram um filme violento, mas repleto de cenas cômicas apresentadas nos momentos corretos, como o primeiro diálogo entre Mattie e Cogburn na frente de um banheiro, ou então Cogburn que ao buscar informações em uma espécie de mercearia indígena chuta o jovem índio tanto na entrada, quanto da saída do estabelecimento e ainda a frase de efeito “Se você quer justiça eu esfolo os pés dele e dou pimenta para você passar. Isso te deixa feliz?”.

Os enquadramentos do filme apesar de simples são belos, especialmente aqueles nas terras selvagens, com a neve caindo sob cavaleiros Mattie e Cogburn. A trilha de Carter Burwell é delicada e fortemente marcada por notas de piano, que ajudam a criar aquela atmosfera de velho oeste.

Para encerrar, vale a pena relembrar da cena onde Mattie após ser pega pelo bando de Lucky Ned (Barry Pepper), se vê obrigada a ficar frente a frente com o assassino de seu pai (Josh Brolin) e com ele negociar uma situação de paz momentânea entre as partes, com tremendo sangue frio e coragem.

A obra como um todo não foge muito da jornada básica do herói (chamada para aventura, amparo do mentor ao longo da jornada, entrada no mundo mágico, provação, ressurreição e retorno ao mundo comum) de Campbell, entretanto não se prende exclusivamente a ela como muitos filmes costumam fazer. Talvez por isso “Bravura Indômita” seja um filme tão redondo e tão poderoso em termos narrativos.


Um abraço e até a próxima!

Por Eligio W. Junior
Revisão de Cassiana Fabbrini



* Personagem de “O Grande Lebowski” que em minha opinião, foi a primeira grande atuação de Bridges. Aliás, esse filme também é dos Coen =)

6 comentários:

  1. Passei por aqui e vou conferir o filme!

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  2. Não vi o filme. Li a resenha, deu vontade de ver. É pra isso que servem as resenhas, não é mesmo? Parabéns!

    Abraço

    Tony

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  3. E é assim. Detalhes de uma obra dos Cohen, contadas por quem tem olhar e conhecimento. Sou obrigado a rever, meu caro amigo.

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  4. Eu assisti quando passou no telecine também :)
    Achei o filme muito bom.. mas ainda prefiro "Onde os fracos não tem vez".

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  5. Assisti ao filme no fim-de-semana passado e o que mais me chamou a atenção foi a atuação brilhante dos atores, em especial da jovem Hailee Steinfeld. Aliás, a menina já descolou um cachê extra como "a nova cara" da marca Miu Miu: http://www.huffingtonpost.com/2011/06/24/hailee-steinfeld-miu-miu_n_883720.html

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  6. Voltei para falar novamente, depois que reassisti no sábado, 24/03, no Telecine.
    Sem dúvida o "novo" Roostern (Jeff Bridges)é de uma criação impar, dizem que supera o próprio Jonh Wayne da primeira versão (mais uma lição de casa), porém LaBoeuf (Matt Damon) e a jovem Mattie (Hailee Steinfeld, compõem o tripé de, digamos, protagonistas, de maneira mais que equilibrada. A composição da Mattie, aos quatorze anos, é de tal coragem e bravura que acaba até exigindo o respeito dos dois. Ela é a razão para que o decaido Rooster se sinta responsável por sua própria e esquecida bravura. A presença de Spielberg na produção corroborou com o foco dos irmãos Coen em uma empreitada para fazerem, novamente, a diferença.

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