segunda-feira, 12 de março de 2012

A Dama de Ferro - Equilíbrio para uma Mente Desequilibrada


Os primeiros minutos de projeção de “A Dama de Ferro” logo avisam do que a obra se trata: um filme que exige reflexão para ser compreendido!


Digo compreensão não apenas para acompanhar a mente desequilibrada de uma Margaret Thatcher já em idade avançada e cercada por “demônios” do passado, mas também para conseguir absorver a difícil escolha de edição truncada realizada pela diretora Phyllida Lloyd e pela editora Justine Wright.



The Iron Lady (título original) apresenta a ex-primeira ministra britânica desde o começo da sua fase adulta, aos últimos anos de recolhimento domiciliar por consequência da frágil saúde física e mental, daquela que recentemente foi eleita como a mais competente no cargo de “Primeiro Ministro” da Inglaterra nos últimos trinta anos pela Ipsos MORI (segunda maior organização de pesquisas do Reino Unido).


Não sei até onde o roteiro de Abi Morgan aborda, de verdade, a batalha mental de Thatcher em vencer a constante presença de seu falecido marido, mas, o fato é que a sobreposição das cenas da personagem nos áureos tempos como Dama de Ferro com cenas em dias de aparente demência me incomodaram um pouco.


Não que eu prefira uma edição linear com começo-meio-fim, mas a utilização de recursos narrativos ao estilo Lost (onde se apresenta o presente, seguido de flashbacks do passado, voltando para o presente, regressando para um passado menos distante, para depois visitar um passado mais longínquo e assim por diante) tendem a causar uma natural confusão e eu não fui o único a perceber isso.


Mas isso é de todo ruim?
Acredito que em alguns momentos a narrativa foi um pouco prejudicada, porém em outros ela foi beneficiada como a cena onde através de uma alternância de cortes, a baronesa dança com seu marido ao longo de três períodos distintos de sua vida.


Boa parte do filme gira em torno da atual Thatcher incomodada por depender de ajuda para cuidar da sua própria vida, ao mesmo tempo em que luta para manter sua sanidade e parar de ver o espírito de marido, que a acompanha a todo o momento. Uma coisa bastante interessante neste núcleo narrativo é justamente a contraposição destas cenas com as cenas de uma mulher forte e determinada, que mesmo desacreditada vence as eleições gerais e se torna a primeira mulher a ocupar o segundo mais alto cargo político da Inglaterra. As constantes transições entre a rígida Dama de Ferro para a frágil e senil Thatcher funcionam bem para criar um perfil sólido da personagem.


Mas obviamente que esta personificação de Margaret seria apenas mais uma entre tantas, se não fosse pela espetacular atuação da premiada Meryl Streep.


Creio que é desnecessário ressaltar as qualidades desta atriz, ainda mais para aqueles que gostam da sétima arte, mas a verdade é que Meryl é definitivamente igual ao um bom vinho. Quanto mais velha, melhor ela fica e neste filme a eterna Francesca (personagem de “As Pontes de Madison”) vai além. É visível que durante seus estudos e preparação para o trabalho Meryl não se preocupou em imitar os trejeitos e postura de Thatcher mais sim, imaginar como será a Meryl beirando os noventa anos de idade e interpretar aquela pessoa com a oratória de Margaret.


Particularmente acredito que a maquiagem fez um show à parte, pois apesar de vestir Meryl com o estilo de roupa e cabelo de Thatcher (além dos dentes falsos), Mark Coulier e J. Roy Helland criaram uma Meryl com quase um século de idade de forma tão competente, que proporcionam closes de mãos e rosto perfeitos. O espectador compra aquela imagem, por justamente não perceber nenhuma falha de maquiagem, ou maquiagem de falsa aparência.



É importante comentar sobre os tormentos vividos pela personagem que ao final de toda uma vida política se vê perturbada pelas decisões do passado e pelas pessoas que sofreram por conta delas. Mesmo acreditando ter feito o melhor (e muitos ingleses até hoje concordam que sim), a personagem se vê atormentada pelo fardo que carregou durante uma década e essa parte do texto é realmente muito boa, por não misturar verdade com veracidade como defende o escritor Robert Mckee. Naquele momento do filme não importa se Margaret Thatcher realmente passou por esse tipo de sofrimento e sim, mostrar que qualquer líder com boas intenções já sofreu, ou sofrerá, em menor ou maior grau com os atos realizados enquanto chefe supremo, pois por melhores que sejam nossas intenções, somos ainda falhos seres humanos.



De modo geral “A Dama de Ferro” é um filme equilibrado. Peca um pouco com cenas soltas e sem muita conexão mas apresenta uma atuação realmente merecedora do Oscar de melhor atriz em 2012, além de bons e fortes diálogos entre personagens e um final bastante sutil e delicado.





Um abraço e até a próxima =)




Por Eligio W. Junior
Revisão de Cassiana Fabbrini

3 comentários:

  1. Meu bom e inquieto amigo! Muito legal termos conversado a respeito desta obra, antes de sua postagem.Vc afirma e com razão quanto as dúvidas e cortes e montagens... Mas eu tenho uma dúvida mais inquietante ainda: Quem é a personagem deste filme Meryl ou Tatcher? Parece louca a pergunta. Meryl quando, ao receber a estatueta, agradece ao marido pelo grande parceiro que é, me parece fazer um "mea culpa" inspirado nas reflexões para construção de sua Tatcher. Cai a ficha ao viver personagem tão complexa. Para Meryl Streep conviver com a "louca vida" conquistada por sua notoriedade como atriz, deve ter deixado de lado, e muitas vezes, seu marido, familia... Assim ao deparar com o "futuro/presente" da personagem... "Agradeço ao meu marido por sua compreensão e parceria"; divagações à parte, porque ouso me perguntar, afinal, quem è a personagem deste filme. Tatcher ou Meryl... Meryl deixou claro em sua performance, que não se viu obrigada em parecer Tatcher, mas Meryl interpretando uma Sra. Dama de Ferro, reconhecida pela própria Margaret em ter sido mais Tatcher que ela mesma. Mas isso é papo Pós-Crédito, não meu amigo Eligio. Prabéns mais uma vez.

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  2. Desequilibrada ou não, eu tô louca para ver o filme!

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  3. Acabei de ver um documentario da BBC sobre sua trajetória e pude perceber a surrealidade e conflito existente, após também tentar apreciar o filme.
    Meryl salvou o longa de ser algo pior, confuso e muitas vezes sonolento, edição e direção poderiam ter transformado o longa em uma grande obra ao assumir o projeto, mas não foi dessa vez.
    Como disse nosso mestre acima, "quem é a personagem,Meryl ou Margaret?"

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