quinta-feira, 5 de abril de 2012

The Runaways - Uma Conversa com Tony Monteiro


Não é novidade para ninguém que milita no meio: em um ambiente predominantemente masculino (e até mesmo machista) do rock, bandas com integrantes mulheres sempre se deram bem. Quer um exemplo? Quase ninguém se lembra que Janis Joplin era a vocalista da banda Big Brother & The Holding Company. Para a maior parte das pessoas, essa era simplesmente sua banda de apoio, tal a atenção que ela despertava.

Assim, foi um furor quando, no começo da década de 1970, surgiu nos EUA uma banda formada apenas por meninas de 16 e 17 anos de idade que faziam um tipo de música que figurava entre o rock and roll, o hard rock e o ainda embrionário punk rock. A história da banda The Runaways, que dá vida ao filme homônimo, foi escrita com ajuda do produtor, compositor, radialista, agitador cultural e maluco de plantão chamado Kim Fowley (que ainda nos dias de hoje pode ser visto por Los Angeles andando com o auxílio de uma bengala e com os cabelos pintados de verde), que descobriu o talento até então adormecido em Cherie Currie (vocais) e Joan Jett (guitarra). A propósito, a atuação de Michael Shannon no filme transmite muito bem esse perfil “alucinado sem limites” de Kim.

Com direção da italiana Floria Sigismondi, essa é a estréia da diretora em longas metragens e talvez por isso ele se apresente de maneira parecida com a banda: bastante crua e direta. Floria já dirigiu vídeo clipes para Sheryl Crow, David Bowie e Marilyn Manson e essa experiência anterior fica evidente em cenas como o primeiro show da banda, onde a câmera opera em constantes travellings e cortes rápidos em close, num clima que remete a shows recentes de bandas como U2.

A história das cinco garotas poderia tranquilamente servir de base para qualquer obra baseada em "ascenção-e-queda" e por ser um filme "chapa branca" (baseado num livro de memórias de Cherie e com produção executiva de Joan), até que poucas situações foram amenizadas, como o homossexualismo da guitarrista, que é tratado de forma bem velada. A personagem de Lita Ford, mostrada antes de tudo como uma loira burra, também evidencia que ainda há coisas a se resolver entre elas.


As atuações de Dakota Fanning (Cherie) e Kristen Stewart (Joan) chamam a atenção, pois por mais sutis que sejam as cenas de sexo entre elas, absolutamente pesadas são as de uso de entorpecentes. Neste ponto é interessante ver como a pequena de Guerra dos Mundos e a eterna Bella da Saga Crepúsculo evoluíram como profissionais, pois encarar papéis nada exemplares é algo difícil e perigoso para atrizes em ascensão.

Historicamente The Runaways acabou sendo uma enorme inspiração para tantas e tantas bandas femininas (ou com mulheres na formação), como The Go-Go's, L7, The Donnas e até o Hole da incorrigível Courtney Love. Joan Jett pode ser considerada a mais bem-sucedida das cinco integrantes da formação clássica da banda, pois com sua banda The Blackhearts lançou clássicos como I Love Rock'n'Roll e I Hate Myself For Loving You.

Já Lita Ford (guitarra) partiu para o heavy metal/hard rock, entrou num período sabático e voltou recentemente à cena com um disco que a crítica amou odiar. Cherie Curry prosseguiu como cantora, se aventurou como atriz e hoje, além dessas duas atividades, também se especializou numa maluquice chamada escultura em madeira com serra elétrica. Jackie Fox (baixo) se afastou da música, trabalhou como fotógrafa, advogada e escreveu um livro de ficção ainda inédito. Curiosamente, Jackie simplesmente não autorizou que seu nome fosse usado no filme, forçando os realizadores a criarem uma personagem fictícia chamada Robin. Já a baterista Sandy West continuou no mundo da música dando aulas de bateria e mantendo seu próprio grupo, o Sandy West Band. Em outubro de 2006, ela perdeu a batalha contra um câncer de pulmão e morreu aos 47 anos.

Para os amantes do velho e bom rock n’ roll, a trilha do filme é sensacional e bem aplicada ao contexto das cenas. Um exemplo é a primeira transa entre a Cherie e Joan marcada por I Wanna be Your Dog, dos The Stooges, que juntamente da lente desfocada da câmera transmite o clima de entorpecimento e descobertas na vida das personagens.

É difícil saber para quem esse filme é indicado! Se ele foi realizado para os antigos e novos fãs da banda, se ele é o tipo de filme para ser visto entre pais e filhos adolescentes no auge de suas descobertas e afirmações, ou então se o filme é para aqueles que gostam da sétima arte, não importado o gênero da obra.

Tecnicamente a obra é bastante simples, as atuações são aceitáveis e a única licença poética se resume ao momento em que Cherie deixa um estúdio onde a banda gravava seu derradeiro álbum. Ao abrir a porta e deixar a luz estourar o primeiro plano, a protagonista remete a ação à busca por redenção e ajuda psicológica.

No fundo, o mais importante neste filme é a história da banda em si e como em pouco tempo quatro jovens garotas foram do paraíso ao inferno sem, entretanto, perder sua grande importância e representatividade na história do rock.


Um abraço e até a próxima!


Por Eligio W. Junior e Antônio (Tony) Carlos Monteiro.
Revisão de Cassiana Fabbrini.

2 comentários:

  1. Grande Bono, parabéns pelo blog!
    Como já lhe disse no email, muitos filmes eu me interesso em assistir a partir do que li aqui. Ainda não tive oportunidade de ver Runaways, mas irei logo.
    O único problema é que o cine aqui é caro! rss

    Abraço!

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  2. Eligio e Tony,

    Eu assisti o filme, numa madrugada dessas da vida e achei bem bacana e fiel a história das "meninas do Rock". Concordo com ambos que a crueza e simplicidade do filme lhe dá toques bem pincelados da trajetória dessas verdadeiras desbravadoras do mundo "macho" do Rock´n´Roll. E viva las chicas com veneno y energia para fazer os meninos dançarem!!! Abraços e sucesso ao Blog!

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