terça-feira, 28 de agosto de 2012

TOMMY: A Viagem de Townshend e Russell

 
 
Faz mais de quarenta anos – para ser exato, foi em 1968 – que a mente absurdamente privilegiada de Pete Townshend, guitarrista do The Who, forjou a história de um garoto que fica cego, surdo e mudo, transforma-se num messias moderno e acaba sucumbindo ao castelo de areia que ajudou a criar.
 
Tommy tem um enredo rebuscado e, por vezes, non sense – mas nada que se compare a outra obra-prima de Townshend que também virou filme, Quadrophenia, uma maluquice quase impenetrável que narra a saga de um sujeito com quatro personalidades!
 
Tommy conta a história de um piloto da força aérea britânica, Capitão Walker, que está feliz com a esposa Nora até ser convocado para a II Guerra Mundial. É dado como desaparecido em combate e sua esposa dá à luz a um menino sem pai – Tommy. Nora cai na conversa do malandrão Frank Hobbs e se enrosca com ele, mas o capitão não havia morrido e volta para reivindicar seu lugar na cama. Na briga, Frank mata o capitão e Tommy vê tudo. Traumatizado, torna-se um garoto cego, surdo e mudo, fazendo seus pais começarem uma peregrinação em busca de sua cura – apesar de um relativo e irônico desinteresse de Frank.
 
A peregrinação do casal e de Tommy, seu talento para jogar fliperama mesmo com suas deficiências, sua cura e transformação numa espécie de guru, culminando com sua derrocada, serviram de base para mais de vinte músicas que foram lançadas no álbum homônimo em 1969 e que é considerado o precursor das óperas-rock. Não demorou muito – seis anos, para ser exato – para que alguém tivesse a ideia de levar aquilo à telona. Coube a Ken Russell a missão de dirigir o filme, que acabaria se tornando sua principal obra.
 
 
Tommy enquanto filme é bastante datado, trazendo aquele festival de cores tão caro ao cinema dos anos 70. As interpretações também são irregulares, já que ao lado de um ótimo Oliver Reed (que interpreta Frank Hobbs) e da balzaquiana, mas maravilhosa Ann-Margret (Nora) estava o espetacular cantor do The Who Roger Daltrey (Tommy), que como ator continua sendo o espetacular cantor do The Who... O elenco de convidados impressiona. São várias as participações especiais, como Tina Turner vivendo a Rainha do Ácido (Acid Queen), Eric Clapton como o pregador de uma igreja que tem Marilyn Monroe como deusa (com direito a ponta de Arthur Brown como pastor), Keith Moon interpretando o pedófilo e engraçadíssimo tio Ernie, Elton John como O Mago do Fliperama (Pinball Wizard) e Jack Nicholson fazendo o médico que na verdade quer é faturar Nora – e recebe grande apoio da parte dela... Aliás, será que Nicholson já interpretou alguém normal em sua longa e brilhante carreira?
 
 
As limitações técnicas da época também são evidentes. Por exemplo, o uso de chroma key na cena em que Tommy se liberta e "corre sobre as águas" definitivamente não deu certo... Por outro lado, Townshend botou o dedo na ferida sem medo em questões tabu, como a já citada pedofilia, o hoje "na moda" bullying e até o incesto – a cena em que Clapton participa insinua uma relação, digamos, mais íntima entre Tommy e Nora, sendo que o refrão da música Eyesight To The Blind diz textualmente: "Você devia conhecer milnha mulher / Quando ela transa até um cego passa a enxergar". Isso motivou a censura dessa música quando o filme foi lançado nos cinemas no Brasil, em 1975. Só que o mais importante de tudo em se tratando de Pete Townshend e The Who é a música. E ela é brilhante, para se dizer o mínimo!
 
Da mesma forma que nas telas, muitos convidados compareceram para emprestar seu talento à obra de Townshend. Além de Clapton, Brown, Tina e Elton, muitos aparecem apenas na trilha sonora, como Ron Wood (recém contratado pelos Rolling Stones), Kenney Jones (baterista que futuramente viria a substituir Keith Moon no The Who), o pianista Nicky Hopkins e Tony Stevens (baixista de grupos como Foghat e Savoy Brown).
 
Tommy acabou rendendo um Globo de Ouro a Ann-Margret e duas indicações para o Oscar para Pete Townshend pela trilha sonora e novamente Ann-Margret. Mesmo com suas limitações esse é um filme que se deixa ver ainda nos dias de hoje. Já sua trilha sonora, essa é eterna.
 
 
Texto de Antônio (Tony) Carlos Monteiro.

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