quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

DJANGO LIVRE: Quentin Tarantino em plena forma


Você tem suas preferências. Eu tenho as minhas. Quentin Tarantino também. A diferença entre eu e você, pobres mortais, e Tarantino, um gênio da Sétima Arte, é que sua competência e seu currículo permitem que ele mostre suas preferências (no caso, cinematográficas) para o mundo todo através de sua obra. Assim foi com os filmes de artes marciais orientais (Kill Bill, 2003 e 2004), com os filmes de guerra (Bastardos Inglórios, 2009) e, forçando um pouco a mão, com o blaxpoitation (Jackie Brown, 1997). Pois agora é a vez de o western spaghetti ser explorado pelo diretor no definitivo Django Livre.

Aliás, vamos começar pelo título. Django Livre não tem nem de longe a força do título original, que não é Django Free, mas Django Unchained, cuja tradução seria Django Desacorrentado - pode não ser um nome comercialmente viável, mas é inegável que há uma diferença abissal entre ele e o que acabou vingando por aqui. "Detalhe do redator chato" à parte, a história, em linhas gerais, gira em torno de um caçador de recompensas que vai atrás de um escravo que tem a pista de uns criminosos que procura. As aventuras tornam os dois parceiros e ambos acabam se envolvendo numa empreitada quixotesca ao tentar resgatar a esposa desse escravo, também escravizada por um fazendeiro tirano - e mais não falo para não tirar a graça para aqueles que ainda não viram o filme...


A primeira hora do filme (duração total: 2h45) é feita para o genial Christoph Waltz brilhar. Se ele já centralizara as atenções como o implacável mas divertido coronel Hans Lanza em Bastardos Inglórios, agora ele simplesmente brilha nesses 60 minutos iniciais de Django Livre interpretando o falso dentista dr. King Schultz. Ajudam em muito os diálogos geniais forjados por Tarantino, que se tornam saborosíssimos quando interpretados pelo ator austríaco. Jamie Foxx também consegue uma atuação corretíssima como o escravo em busca de vingança Django. As cenas de perseguição, negociação e "abate" dos criminosos procurados têm peso bárbaro pela carnificina que impera nas cenas em que ele encontra sua caça - lembre-se que os cartazes de "procurados" do Velho Oeste vinham com a observação "vivo ou morto" e Schultz achava a segunda opção bem mais prática que a primeira... O filme vai dar uma desacelerada logo após a primeira metade, como acontece com quase todas as obras de Tarantino, mas é tudo uma simples preparação para o que vem na parte final.


Que o diretor é famoso por pegar atores medianos e arrancar todo seu potencial é algo que todo mundo sabe. Isso aconteceu com John Travolta em Pulp Ficition, de 1994 (apesar de, pessoalmente, achar que Travolta sempre foi um ator bom mas injustiçado - e que fez péssimas escolhas de filmes para atuar), com Brad Pitt em Bastardos Inglórios e agora com Leonardo DiCaprio. Porém, não acreditem no que diz a crítica: apesar de DiCaprio interpretar (muito bem) o tirano fazendeiro Calvin J. Candie e, por isso, ser considerado o personagem mais maléfico da história, não é ele o grande vilão. Observem o quase irreconhecível Samuel L. Jackson interpretando de forma magistral o escravo Stephen e digam se não estou certo...


Neste ponto, cabe um adendo - e prepare-se que lá vem mais uma "chatice do redator"... Alguns reclamaram que a palavra nigger é usada no filme de forma excessiva. Acontece que naqueles tempos (o filme se passa em 1858) essa era uma palavra, apesar de pejorativa, tremendamente comum para se referir aos negros. Assim, o máximo que Tarantino poderia fazer era ser politicamente correto e substituir esse termo por outro, digamos, menos ofensivo. Agora, raciocinemos juntos: dá pra imaginar as palavras "politicamente correto" e "Quentin Tarantino" na mesma frase? Pois é... Entre um diálogo e outro, Django Livre, repito, é uma carnificina de respeito. Tarantino não se constrange em filmar pedaços de carne voando quando alguém é atingido por um tiro, nem corpos sendo lançados a metros de distância no momento em que são alvejados - eu sei, você sabe, Tarantino sabe e os caras do Mythbusters já provaram que isso não acontece em hipótese alguma, mas quem se importa? O diretor, como de hábito, faz sua ponta no filme (tradição herdada do mestre dos mestres Alfred Hitchcock) e no caso em questão tem uma morte simplesmente hilariante.

O final, apoteótico, sangrento e repleto de ódio, é exatamente aquele que se espera do diretor, que conseguiu acertar a mão em todo o desenrolar do filme, como já se tornou rotina - além de sacar da cartola uma trilha sonora brilhante, que transita com uma baita desenvoltura de Ennio Morricone a James Brown, com direito a um Johnny Cash de sobremesa.

Agora, fica a dúvida... Qual será a próxima homenagem de Quentin Tarantino? Será que ele curte ficção científica? Já pensou??



Texto de Tony Monteiro

Um comentário:

  1. Tony, eu ainda não vi o filme, mas a vontade só aumentou depois de eu ler suas linhas!E tomara que o Quentin goste de ficção. Eu imagino o que ele aprontaria nessas paragens... rsrsrsrrs abraços e ótimas críticas futuras!

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