quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Meu nome é Bourne, Jason Bourne!

Um corpo boiando no oceano, uma melodia triste e uma pergunta que vai do início, ao término de toda uma trilogia: "quem é esse cara?". 

Assim começa A Identidade Bourne (2002), filme oriundo da série de livros escrita por Robert Ludlum e protagonizado pelos ótimos Matt Damon (Gênio Indomável) e Franka Potente (a Lola do espetacular Corra, Lola, Corra). A escolha do casting não poderia ser mais perfeita, pois Franka parece ter nascido para filmes onde prevalece o caos. Já Damon - que acabara de atuar em Onze Homens e Um Segredo (2001) - apesar de naquela época ter cara de menino criado com a avó, sustentou a "filosofia Bruce Willis": onde não é necessário ter o tamanho do Vin Diesel para viver o papel de um agente secreto treinado para matar e escapar das mais diversas situações possíveis.

  
Em termos narrativos a história é relativamente simples e em certos pontos até manjada, uma vez que hoje é muito difícil este gênero apresentar algo completamente inovador e surpreendente. A mocinha (Marie) se apaixona pelo "bandido", argumento que, apesar de muito clichê, funciona e sustenta o desenvolvimento do par romântico de Bourne ao longo da franquia. Garantia certa de muita diversão regada com um elenco coadjuvante de peso, como Chris Cooper (Beleza Americana), Brian Cox (Tróia) e Clive Owen (o eterno Dr. Larry de Closer).


A Identidade Bourne cumpre à risca sua função, que é apresentar este anti-herói ao espectador e nos conduzir por uma jornada maluca onde um desmemoriado tenta não ser morto a cada meia hora, enquanto busca por pistas que o façam lembrar quem ele é e o que ele é. A evolução do Bourne indigente na Suíça ao Bourne estrategista e articulador é racional e crível. Por exemplo, a maneira como foi coreografada e enquadrada a cena onde ele se defende pela primeira de dois policiais não ofende a inteligência do espectador, provando que Doug Liman (Sr & Sra. Smith) apesar de novato, sabia como dirigir essa história.

Bourne foi treinado pelo serviço secreto americano para se tornar uma verdadeira máquina mortífera. Entretanto, o feitiço se vira contra o feiticeiro e agora o bureau treme toda vez que ouve o nome do renegado agente e não é para menos! O cara é multifacetado, trilíngue, bom de briga, articulador e sangue frio. Um perfil que só voltaríamos a ver de forma tão bem trabalhada, na nova franquia 007 estrelada por Daniel Craig. 

Não posso deixar de comentar que a certa altura do filme, ocorre um diálogo onde Bourne diz para Marie que é hora dela se decidir e "começar a correr". Não me contive e comecei a rir, pois apesar de uma frase tola foi impossível não lembrar dela correndo o tempo todo em Lola. Seria essa frase um easter egg proposital de roteiro? 

Dois anos se passam e A Supremacia Bourne (2004) estréia nos cinemas com Doug Liman trocando a direção pela produção executiva e Peter Greengrass (Domingo Sangrento) fazendo às vezes do “senhor do set”.


Da Grécia, Bourne e Marie vão parar na Índia, com intuito de “sumirem do radar” enquanto buscam por respostas. Apenas alguns minutos separam o início calmo, de um ritmo frenético constantemente captado por uma câmera solta que chega a incomodar pelo exagero de imagens trêmulas. 

Para quem ainda não assistiu, vou poupar o spoiller e apenas comentar que após uma tragédia, Bourne é incriminado por algo que não cometeu, a partir de falsas digitais plantadas no local do crime. É nesse contexto em que Pamela Lindy (vivida por Joan Allen de Diário de Uma Paixão) se insere como a chefona da CIA designada a caçar Bourne, custe o que custar. 

A dinâmica de narrativa é basicamente a mesma, ou seja, outros assassinos da corporação, longas sequências de lutas corporais, correria e perseguições automobilísticas com os carros europeus antigos. Nesta sequência existem pontos negativos a se destacar, como câmera mais do que solta, além de uma exagerada perseguição ocorrida dentro de um túnel. Erraram ao tentar uma aproximação à saga Bond, com um agente imbatível e infalível. Em contrapartida, existem momentos fantásticos como a cena em que Bourne invade o escritório de Ward Abbott (novamente vivido por Brian Cox) e com ele trava um diálogo à meia luz e no segundo plano. 

Impossível ignorar as hilárias frases de efeito, como quando Pam, já ao final do filme, pede para Bourne ir até Nova Iorque conversar sobre as verdades que ela descobriu e ele, pelo telefone, apenas diz “Descanse um pouco Pam, você está com uma cara abatida”, ao som de duas notas agudas marcando o início da música de encerramento, que nos remete ao estilo de trilha característico do gênero blacksploitation (ou blaxploitation) da década de 1970. 


Após três anos é chegada a hora de Matt Damon se despedir da trilogia Bourne, no bom O Ultimato Bourne (2007), novamente dirigido por Paul Greengrass, que desta vez revigorado, inicia o filme do exato ponto onde parou o segundo, ao mesmo tempo em que brinca com cenas em flashback que contam o que ocorreu no intervalo de alguns dias de ação amarrando assim, as pontas soltas entre uma obra e outra. 

Esta última parte da história funciona como um encerramento de ciclos. Nomes como Operação Blackbriar e Treadstone são explicados; entendemos o que levou Jason a se tornar Bourne; a roupa suja dentro da CIA é lavada e Pam Landy passa de malvada à aliada; Bourne termina sua última cena boiando, assim como na sua primeira; além de pequenos detalhes que servem para finalizar a história de amor entre Bourne e Marie, como a visita dele ao irmão dela na mesma Paris do primeiro filme e a proteção que Jason fornece a Nicky Parsons (vivida por Julia Stiles em toda trilogia) que se vê obrigada a tingir os dourados cabelos, da mesma forma que Marie.


Mais uma vez é seguida religiosamente a fórmula composta por perseguições, pancadaria e um assassino no cangote dos filmes anteriores. Desde as primeiras cenas esperamos por esses eventos de tão previsíveis que são, mas confesso que mesmo após algumas horas de Bourne, eu ainda me diverti com os feitos quase impossíveis do, agora, nosso herói. 

Porém, o retorno de Parsons me pareceu mais um desculpa para Matt Damon contracenar com uma bela atriz, do que algo realmente pertinente para a narrativa! Ainda mais porque é insinuado que ambos tiveram uma história antes da amnésia, mas algo que fica sem explicação no decorrer do longa.

A trilogia se encerra com Jason Bourne conseguindo aquilo pelo o que tanto lutou e deixando ainda sobra para uma nova safra de agentes secretos. É então que sai Matt Damon e entra Jeremy Renner (João e Maria – Caçadores de Bruxas, Missão Impossível – Protocolo Fantasma, Os Vingadores e Guerra ao Terror), o atual mais badalado ator de filmes de ação de Hollywood.


Em O Legado Bourne (2012), Jeremy encarna o personagem Aaron Cross ao lado de seu interesse amoroso vivido pela primorosa Rachel Weisz (Um Olhar do Paraíso, Fonte da Vida, O Jardineiro Fiel e Constantine), sob direção de Tony Gilroy que, apesar de novato, é roteirista no universo Bourne desde o primeiro longa.


Uma vez mais somos apresentados às sequências de perseguições aumotobilísticas e lutas corporais, talvez por ser uma marca registrada da franquia, ou talvez para agradar o público deste gênero de cinema. Felizmente Gilroy desiste da estética e linguagem utilizadas anteriormente e parte para uma história onde os picos de ação são espaçados e competentemente balanceados com sequências de calmarias, onde a psique deste novo agente é mais bem explorada. 

A Treadstone se torna a Outcome, Pam Landy é substituída pelo Coronel Eric Byer (interpretado por Edward Norton de O Incrível Hulk, O Ilusionista e Clube da Luta) e um novo ciclo de perseguição entre CIA e seu filho pródigo se inicia. 

Jason Bourne é citado mais de uma vez para manter a ligação entre as possíveis duas trilogias, porém o herói é perseguido por uma razão mais simples que a anterior: as drogas aplicadas nos agentes Outcome falharam e é necessário exterminar todos os experimentos. A simplicidade do argumento é boa, justamente por não forçar a barra com algo mirabolante que justifique a continuidade da saga Bourne. Mesmo longe de pertencer ao seleto grupo dos grandes filmes da história do cinema, a saga Bourne é verdadeiramente boa e vale a pena ser vista, mas não entendo a necessidade – além da financeira - de explorar ainda mais um enredo já esgotado durante três longas. 

Uma vez que a bilheteria mundial de O Legado (US$ 113 milhões) foi inferior ao primeiro filme (US$ 121 milhões), me pergunto se o público não se cansou das histórias sobre o governo americano e seus agentes criados em laboratório! Creio que a Universal não conseguirá alcançar os fabulosos US$ 227 milhões faturados mundialmente por O Ultimado Bourne, mas acredito que insistirão em mais dois filmes somente pelo dinheiro e para ter um produto competitivo para os verões americanos. Em outras palavras, só nos resta torcer para que o nível dos próximos Bournes seja no mínimo igual ao último, pois o que vier a mais será lucro para os amantes da sétima arte.


Um abraço e até a próxima conversa!


Texto de Eligio W. Junior

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