quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Quando Ralph "Detona" A Viagem

O ano acabou de começar e já assisti dois longas cujo mote é a questão da bondade. O último deles, famoso nas rodinhas, amados por uns, odiados por outros é Cloud Atlas (A Viagem).

Com nome de novela espírita transmitida pela Rede Globo, a obra tinha tudo para dar certo, mas o filme não engrena. Bem no início o narrador (que é um dos personagens) pede um pouco de paciência porque vamos perceber que as narrativas têm sim, conexões entre si. Eu tive paciência, olhei atentamente, esperando ver no detalhe alguma coisa que ninguém viu. Na verdade, com tão pouco elenco mudando de cara a todo momento a gente se distrai tentando identificá-los (só Tom Hanks que ninguém consegue disfarçar!). Eu e meu marido começamos a comparar a superprodução com as peças de teatro em que os atores fazem vários personagens, usando da maquiagem para dizer que “estão diferentes”.
Não é que não tenha conteúdo. Tem! Mas poderia ter sido mais explorado.
O filme traz algumas nuances do Espiritismo, como a continuidade da vida após a morte, a presença de espíritos nos influenciando e a filosofia de que tudo que fazemos de bem ou mal reflete na nossa vida futura. O que faltou foi roteiro para ligar as histórias e dar um sentido a tudo aquilo! Não adianta só contar algumas histórias. É preciso explicar o que elas têm em comum, seja uma cidade (como em Nova York Eu Te Amo), a morte (como nos filmes de catástrofe) e por aí vai.
O que é a marca da estrela cadente em todos eles? Significa a mesma pessoa reencarnando com a cara dos outros? E quem são os personagens feitos pelo mesmo ator/atriz? O Tom Hanks que hora é o guerreiro atormentado, hora um médico ganancioso, um físico assassinado e também um escritor assassino, não deixou claro se é um ser que se redime ou piora. A mensagem do filme é que cada atitude nossa constrói o nosso futuro, mas na parte prática não há exemplo claro. Quando vi a relação da Deusa Somni (o robô da Nova Seoul de 2321), que é idolatrada pelo guerreiro e sua tribo, pensei: “Como isso?”. Apenas depois  de pesquisar, entendi que o guerreiro está situado após 2321, não antes, porque tive a sensação por todo o filme de que eles estavam em 1280, mesma época de William Wallace (Mel Gibson) em Coração Valente.

Outro ponto negativo é o gore (violência dos miolos explodindo, de gente estatelando no chão, vermes saindo da boca...) totalmente desnecessário. O filme não pertence ao Tarantino e esse exagero só atordoa.
Atrás de mim ouvi alguém comentando que o filme era mais louco que Efeito Borboleta e ao final da projeção sai agradecida por A Viagem não ser outro Vanilla Sky, que a gente sai sem saber se o nosso parceiro é real, ou um produto da nossa cabeça.
Na trilogia Matrix, a mensagem dos mesmos irmãos Wachowski (pelo menos como assim eu compreendi) foi que as pessoas precisavam se desconectar do mundo virtual e viver a realidade. Neste, ficou apenas que devemos ser bons, mas soou como um conselho de mãe, porque na prática a gente só vê maldade.
Mas já que estamos falando sobre bondade, vamos ao segundo filme que vi chamado Detona Ralph!
A animação, que é muito bacana por sinal, me remeteu ao frescor do primeiro Shrek com o anti-herói grandalhão Ralph.

Nas primeiras cenas dentro da terapia de vilões com Satã (que é Natan) e um Zumbi com machadinha me causaram estranheza e mais as cenas seguintes misturando um game de ação com violência, armas e vermes que precisavam ser destruídos antes que comessem tudo, me fizeram pensar que eu tinha errado feio a mão, justo no filme que escolhi para levar meu filho em seu aniversário de quatro anos (e sua estréia do cinema).
No decorrer da projeção, que ganha o colorido rosáceo e a beleza dos desenhos da Disney, percebi a mesma fantasia de Alice no País das Maravilhas de Tim Burton (também da Disney) e agradeci aos céus por ainda existir inteligência e novidade na sétima arte!  

O roteiro é muito bom, a mensagem é clara e o timming não se perde em momento algum. Engraçado que são quatro games diferentes, com personagens muito distantes uns dos outros que na trama se relacionam e dão o tom do enredo que, aparentemente absurdo no início, proporcionam um final perfeito.
Sai do cinema pensando na genialidade dos roteiristas (de Os Simpsons e Wall-E) que escreveram um filme Infantil, mas não ingênuo. Um desenho que poderia ser um live-action, com outra roupagem e a mensagem seria a mesma.
Assim como em A Viagem, há uma sequência de frases que no início não nos dizem muita coisa, como “Eu sou mau e isso é bom. Nunca serei bom e isso não é mau. Não há ninguém que eu queria ser além de mim”, mas no final, com a história sendo digerida por nosso intelecto, ensina que a nossa posição no microcosmo ao qual estamos inseridos é necessária para o equilíbrio. Devemos ser bons, porém não temos que nos tornar quem nunca fomos e sim resgatar a bondade que há em nós. Parece confuso, mas só assistindo para entender e esse é o lance. Em Cloud Atlas a sequência “Desde o útero até ao túmulo somos ligados a outra pessoa. No passado e no presente. E com cada crime, e cada boa ação, fazemos renascer o futuro” fala da mesma coisa, de forma menos lúdica e codificada.

Sob o meu ponto de vista, ao mirar as crianças, Detona acertou em cheio os adultos (o game que foi criado após o longa está entre os mais baixados da Apple Store) falando com sutileza sobre o mesmo assunto do outro filme, que quis ser épico e bater os feitos de Matrix (mesmo mal sofrido por James Cameron em Avatar versus seu Titanic) para terminar sobrando.
Uma obra bacana não precisa ser explicada. É como uma boa piada, que ao final, todo mundo está rindo... Se quando os créditos sobem e o público não estiver aplaudindo, algo está errado e a tentativa de uma história complexa e interligada não foi compreendida.

Até a próxima conversa!


Texto de Cassy Fenga

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